Sem apresentar provas consistentes ou elementos comprobatórios robustos de suas acusações, a ANVISA agiu contra os produtos da YPÊ. Em situação reversa, a indústria apresentou laudos e análises técnicas que sustentariam a regularidade sanitária de seus produtos — elementos essenciais que, segundo a empresa, não foram devidamente considerados pela agência governamental.
O que se observou, diante da enorme repercussão das medidas fiscalizatórias, foi um efeito contrário ao esperado: uma verdadeira propaganda nacional gratuita dos produtos alvo da operação. Pelas atitudes da agência, o enfoque político passou a ser inevitavelmente debatido, sobretudo diante do histórico de posicionamentos e relações institucionais envolvendo setores do atual governo e estruturas regulatórias federais.
FISCALIZAÇÃO OU ESPETÁCULO?
O ponto central da discussão não é a existência da fiscalização. Ela é necessária. Ela é legítima. Ela deve existir. O problema começa quando ações regulatórias passam a carregar sinais de seletividade, excesso de exposição midiática ou ausência de proporcionalidade técnica claramente demonstrada à sociedade. Quando uma agência de Estado age sem transparência absoluta sobre os fundamentos técnicos de suas decisões, abre-se espaço para questionamentos inevitáveis. E no Brasil atual, onde praticamente tudo se tornou disputa ideológica, qualquer medida estatal passa imediatamente a ser analisada também sob o prisma político.
LAUDOS IGNORADOS E DÚVIDAS AMPLIADAS
A empresa sustenta possuir documentação técnica, análises laboratoriais e elementos sanitários capazes de demonstrar a segurança dos produtos. Se isso é verdade — e cabe às autoridades esclarecer com absoluta transparência — surge uma pergunta inevitável:
POR QUE ESSES ELEMENTOS NÃO FORAM DEBATIDOS PUBLICAMENTE COM A MESMA INTENSIDADE DAS ACUSAÇÕES?
A sociedade tem o direito de compreender: – quais as irregularidades foram efetivamente encontradas, – qual o risco concreto apresentado – quais provas sustentam medidas tão severas. Sem isso, cria-se um ambiente perigoso: o da condenação pública antes da comprovação definitiva.
O EFEITO REVERSO: MARKETING INVOLUNTÁRIO
Há ainda um aspecto curioso e até irônico em toda a operação. Ao transformar os produtos da YPÊ em pauta nacional, o próprio aparato estatal acabou promovendo aquilo que pretendia atingir. Milhões de brasileiros que sequer conheciam a marca passaram: a pesquisar, comentar, compartilhar e consumir conteúdos sobre os produtos. Em comunicação, existe uma regra conhecida: “não existe publicidade mais poderosa do que a polêmica”. E foi exatamente isso que aconteceu.
O RISCO DA POLITIZAÇÃO DAS AGÊNCIAS
Agências reguladoras existem para proteger a sociedade — não para alimentar disputas políticas ou ideológicas. Quando decisões técnicas passam a ser percebidas como instrumentos de narrativa governamental, perde-se algo fundamental: a confiança institucional. O Brasil vive um momento delicado, em que parte da população já não consegue separar: Fiscalização legítima – perseguição política, ativismo estatal, e uso estratégico das estruturas públicas. Esse desgaste é perigoso para a própria democracia.
O QUE A SOCIEDADE ESPERA
A população não espera espetáculo. Espera: transparência, critérios claros, imparcialidade e segurança técnica real. Se houve irregularidades, que elas sejam provadas de forma objetiva. Se não houve, que os excessos sejam igualmente expostos, além da responsabilização por eventuais prejuízos. O que não pode existir é um modelo onde a reputação de empresas, profissionais e marcas seja destruída primeiro — para só depois se discutir provas concretas. No fim, o caso IPÊ escancara um problema maior: o crescente desgaste da confiança entre sociedade e instituições regulatórias. Quando decisões técnicas deixam dúvidas políticas no ar, o efeito colateral é inevitável: Cresce a desconfiança, cresce a polarização e cresce a sensação de que estruturas públicas podem estar sendo usadas além de suas funções naturais. E talvez o mais simbólico de tudo seja justamente isso:
Na tentativa de atingir os produtos da IPÊ, o governo pode ter acabado realizando a maior campanha de divulgação que a marca já recebeu em toda a sua história.
Jayme Rizolli – Jornalista.