Sarney: Estou no block do Tigrinho

*José Sarney

Tenho alergia por jogo de azar. Talvez tenha sido influenciado por um caso que ouvi de minha avó, na infância, sobre um parente, gerente de uma das lojas das Casas Pernambucanas. Muito sério e honrado, contraiu o vício do jogo e, depois de perder tudo em apostas, matou-se para não ver sua reputação destruída.

Minha aversão por jogo de azar é total. Nem bilhete de loteria oficial me seduz. Se Deus fez tanto por mim, eu não vou pedir a Ele que me faça ganhar dinheiro sem trabalhar, acertando em loteria ou qualquer outro jogo. Nunca entrei num cassino nem ao menos participo da diversão de pife-pafe ou pôquer. Nem por isso atiro pedra em quem o faz para divertir-se sem dinheiro.

 Com esse espírito fui alimentando uma revolta com o que está acontecendo com o Brasil, transformado num grande cassino dominado pelo jogo. Isso causa imenso sofrimento à população, vítima de exploradores, a exemplo das chamadas “bets”, cujas sedes estão no exterior. A verdade é que o Brasil está drenando o suor do trabalho e a poupança do seu povo, gerando miséria e destruindo famílias para o benefício de espertalhões estrangeiros. Eles acumulam grandes fortunas lá fora, além de explorarem muitos outros países onde se infiltraram. E ninguém sabe ao certo como, e com quais métodos, aqui se instalaram. A CPI do Senado apurou que o setor de apostas retirou cerca de R$ 143 bilhões do comércio brasileiro num período de dois anos, enquanto esquemas criminosos, liderados por influenciadores também causaram grandes prejuízos, segundo publicações da Folha de São Paulo e do jornal O Globo.

 Recentemente, apareceu o tal do “tigrinho”, jogo online que se transformou numa praga nacional.  Milhões de pessoas já estão totalmente viciadas, arrastadas para essa ratoeira tecnicamente armada. No princípio, com o claro objetivo de enganar, as vítimas são atraídas por ganhos fáceis que logo são perdidos, já que os algoritmos foram feitos para extorquir e sugar, levando os jogadores à miséria, devorados pelo tal tigrinho.

 Bastava a alegria do futebol, o mais democrático dos esportes. Nos estádios, onde todos são iguais, o país não tem preconceito de raça, religião etc. O que divide é apenas a paixão pelo seu time, manifestada pelos hinos de cada um, pela camisa e pelo grito de guerra. Muitas vezes há excessos, o que é condenável, porque o futebol é amor e não violência: amor gratuito, paixão hereditária, que se transmite como um bem de família.

 O Flamengo é intocável na minha, e ser torcedor dele é uma de nossas características, embora genros e noras tenham trazido outras bandeiras e times, que aumentaram a disputa saudável, o que anima a torcida durante os jogos.

Com grande satisfação, vejo que não estou sozinho entre os que se posicionam contra o tal do “tigrinho” e contra essa jogatina que tomou conta do nosso país, trazendo graves reflexos para a economia.

 Quero louvar o Block contra a jogatina, a começar pelo “tigrinho”. Block pode significar também bloco, numa tradução bem brasileira e popular. Mas a sua verdadeira ideia é bloquear, impedir, barrar — e eu acrescento uma pessoal, extinguir.

Assim venho me colocar no Bloco de Chico Buarque, do meu colega da Academia Brasileira de Letras, Gilberto Gil, de Caetano Veloso, Luisa Arraes, Djavan, Marieta Severo, Paulinho da Viola, Camila Pitanga, Alcione e de todos os artistas e cidadãos comuns como eu, poeta bissexto, e de padres e frades que abominam os jogos de azar, porta de crimes e pecados.

 Faço aqui o meu apelo para conscientizar o povo brasileiro contra essa epidemia da jogatina e das “bets” predatórias. A Confederação Nacional do Comércio mostra que 1,8 milhão de brasileiros se endividaram por causa das apostas online em 2024 — embora ainda não tenhamos dados consolidados de 2025 —; e o Levantamento Nacional do Álcool e das Drogas, que 1,4 milhão de brasileiros apresentam transtornos associados às apostas. Os brasileiros, segundo o Banco Central, estão gastando entre 20 e 30 bilhões de reais por mês em plataformas online.

Bendito o jogo de bola, esportivo, de graça, no campo, nada online. Que nos traga a extinção do “tigrinho” e de todas as apostas. E a vitória no campo.

*José Sarney é escritor, jornalista e ex-Presidente da República do Brasil

 

 

Agora é oficial: EUA efetivam designação do PCC e CV como organizações terroristas

Determinação de Trump passa a tratar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas estrangeiras. As facções criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) foram oficialmente classificadas como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO), bem como designadas como Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGT). A oficialização da determinação anunciada em maio pelo presidente Donald Trump foi publicada na edição desta sexta-feira (5) do Federal Register, diário oficial do governo federal estadunidense.

Para o enquadramento como FTO, o secretário de Estado, Marco Rubio, considerou haver “base factual suficiente” para aplicar a seção 219 da Lei de Imigração e Nacionalidade e enquadrar o PCC e o CV como Organizações Terroristas Estrangeiras. A designação passa a tornar crime federal dar “apoio material” a grupos terroristas, com base na Lei de Imigração e Nacionalidade, e depende de aval do Congresso dos EUA.Já a formalização como SDTG, vigente desde maio, tem base em decreto do ex-presidente George W. Bush, como reação aos atentados do 11 de Setembro de 2001, sem necessidade de aval do Congresso dos EUA.

Cerco ao terrorismo

As medidas equiparam as facções brasileiras a mais de 90 grupos extremistas, como Hamas, Hezbollah, Al Qaeda e Estado Islâmico. E garantem o congelamento patrimonial de bens ligados às facções, controlados de pessoas ou entidades dos EUA. As designações impõem penalidades cíveis e criminais contra quem efetivar transações com o PCC e o CV, vetando e até deportando imigrantes faccionados nos EUA. E ainda obrigam instituições financeiras americanas a identificar e reportar ao Departamento do Tesouro a existência de fundos ligados às facções brasileiras.

“As pessoas conhecidas como Primeiro Comando da Capital (também conhecido como PCC, First Capital Command) e Comando Vermelho (também conhecido como Red Command) são estrangeiros que cometeram ou tentaram cometer, representam um risco significativo de cometer ou participaram de treinamento para cometer atos de terrorismo que ameaçam a segurança de cidadãos dos EUA ou a segurança nacional, a política externa ou a economia dos Estados Unidos”, diz o texto publicado no Federal Register.

Além do PCC e CV, ligados ao tráfico de drogas e diversos crimes brutais, já foram designados como terroristas pelo presidente Donald Trump os cartéis latino-americanos como Sinaloa, do México, e Tren de Aragua, da Venezuela.

Diário do Poder

 

Justiça ou Loucura? Juíza usa misoginia para conceder perdão a mãe assassina de Henry Borel

*Por Emílio Kerber Filho

A decisão que concedeu perdão judicial a Monique Medeiros, mãe de Henry Borel, provocou forte repercussão jurídica e social em todo o país. O motivo da controvérsia não está apenas no resultado da sentença, mas também em parte da fundamentação utilizada pela magistrada para justificar a concessão do benefício. Na decisão, a juíza considerou que Monique teria sido vítima de violência psicológica, manipulação emocional e um contexto de submissão dentro do relacionamento que mantinha com o ex-vereador Jairinho. A magistrada também mencionou elementos relacionados à condição da mulher em relações abusivas e ao ambiente de opressão vivenciado por ela.

Para críticos da decisão, o entendimento representa uma perigosa ampliação de conceitos que poderiam relativizar responsabilidades em um dos casos criminais mais chocantes da história recente do Brasil. Henry Borel morreu em março de 2021, aos quatro anos de idade, após dar entrada em um hospital do Rio de Janeiro com múltiplas lesões. O caso gerou enorme comoção nacional e mobilizou autoridades, especialistas e a opinião pública. Desde então, o processo passou a simbolizar o debate sobre violência contra crianças, responsabilidade familiar e falhas de proteção institucional. O ponto que agora gera indignação em diversos setores da sociedade é a percepção de que a discussão sobre misoginia e violência de gênero estaria sendo utilizada para justificar um benefício judicial em um caso cuja principal vítima foi uma criança.

Juristas divergem sobre a interpretação. Defensores da decisão argumentam que o Poder Judiciário tem o dever de analisar não apenas os fatos objetivos, mas também o contexto psicológico e social vivido pelos envolvidos. Já os críticos sustentam que a aplicação desse raciocínio pode abrir precedentes perigosos, permitindo que fatores subjetivos passem a exercer peso excessivo em decisões de grande impacto social.

Nas redes sociais, a repercussão foi imediata. Milhares de internautas passaram a questionar se conceitos originalmente criados para proteger mulheres vítimas de violência estariam sendo expandidos para situações que extrapolam sua finalidade inicial. O debate também reacendeu uma discussão mais ampla sobre os limites do ativismo judicial e sobre até que ponto convicções sociológicas podem influenciar decisões que envolvem crimes de enorme repercussão.

Independentemente da posição adotada, uma constatação parece inevitável: o caso Henry Borel continua produzindo debates profundos sobre justiça, responsabilidade e os critérios utilizados pelo sistema judicial brasileiro. E é justamente por isso que a pergunta segue ecoando entre milhões de brasileiros: Estamos diante de uma decisão jurídica legítima ou de mais um episódio que amplia a sensação de distanciamento entre a Justiça e o sentimento da sociedade?

Emílio Kerber Filho

Escritor e Estrategista Político. Criador do método Arquitetura Eleitoral:

 

Oposição se organiza para não permitir que “o PT e Lula roubem novamente os aposentados”

As ligações umbilicais do atual governo com a roubalheira do INSS estão cada vez mais explicitas. Diante desse quadro caótico, o partido Novo lançou uma ofensiva contra a decisão do INSS de restabelecer um acordo de cooperação técnica firmado com a Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores Familiares (Contag), entidade investigada pela Polícia Federal, uma das que mais roubou os aposentados na farra do INSS. Os quatro deputados do Novo — Adriana Ventura (SP), Marcel van Hattem (RS), Gilson Marques (SC) e Luiz Lima (RJ) — apresentaram um projeto de decreto legislativo (PDL) para rever a medida e um requerimento de informação (RIC) para saber seu embasamento.

Além disso, solicitaram a convocação do ministro da Previdência Social, Wolney Queiroz, para prestar esclarecimentos na Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara dos Deputados. O senador Eduardo Girão (CE) também apresentará pedido semelhante no Senado. O convênio havia sido rescindido de forma unilateral pelo governo em abril, mas a presidente do INSS, Ana Cristina Viana Silveira, aceitou um pedido de revisão e tornou a decisão anterior sem efeito.

Para a deputada Adriana Ventura, “o governo Lula passou a mão na cabeça de uma das entidades que mais roubou aposentados no escândalo do INSS”. Já Eduardo Girão considerou que “em vez de reforçar mecanismos de controle, o governo decidiu restabelecer o acordo”.

Jornal da Cidade Online

 

Teria sido a falta de caneta para acentuar mais corrupção

Virou piada a questão dos inexplicáveis repasses de recursos contratados pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro com o escritório da advogada Viviane Barci, esposa do ministro Alexandre de Moraes.

Um personagem do X, identificado com Alfred Newmann publicou o seguinte:

“Se os R$ 129 milhões já eram difíceis de explicar, voltei do almoço e descobri que havia mais um contrato de R$ 50 milhões pronto para ser pago à Vivi de Moraes. A transferência só não aconteceu porque faltou uma assinatura.

Pelo visto, o problema não era falta de dinheiro. Era apenas falta de caneta.”

Os milhares de comentários na sequência são reveladores. Eis alguns:

“Para um juiz que adora julgar e condenar com uma ‘canetada’ é realmente uma grande ironia…”

“Minuta do golpe colocou gente presa. Será que a minuta desse contrato põe alguém na cadeia?”

“Aqui no nordeste, uma mulher chegar com 129 milhões de um serviço que nunca prestou a reputação do casal acaba e se o pagador for mulherengo.”

“Cara, esse careca tá atolado na lama até o ultimo fio de cabelo!!! Quer dizer, do toba!!!”

“Cinismo estampado nas caras dessas figuras corruptas…”

E o silêncio do casal é simplesmente ensurdecedor.

Jornal da Cidade Onlin

Por exigir CPF para descontos, a Drogasil foi condenada pagar danos morais de R$ 10 milhões

Uma rede de farmácias não pode exigir o CPF do cliente em troca de desconto nos produtos. Essa é a decisão do juiz da Vara de Interesses Difusos e Coletivos da Comarca de São Luís (MA), que acatou o pedido de uma ação civil pública ajuizada por uma instituição de defesa dos direitos humanos contra a Drogasil. O magistrado deu 60 dias para a Drogasil implementar “uma política clara e destacada de consentimento em todos os pontos de vendas,“ a fim de “assegurar que o ingresso em programas de fidelidade ou a coleta de dados ocorra apenas após o repasse de informações claras ao consumidor”. A decisão foi publicada na última sexta-feira (29/5).

No processo, a entidade afirmou que, nas farmácias da rede, a coleta de dados ocorre sob a justificativa de concessão de descontos e inclusão em programas de fidelidade, mas “é realizada sem o devido consentimento livre, informado e inequívoco dos clientes”. A instituição argumentou que a prática “configura violação direta à Lei Geral de Proteção de Dados e ao Código de Defesa do Consumidor”. Ao se defender, a Drogasil afirmou que a solicitação do CPF é “uma faculdade oferecida ao consumidor para o ingresso em programas de benefícios e fidelidade, rechaçando qualquer alegação de comercialização, compartilhamento indevido ou uso abusivo das informações coletadas”.

Ao avaliar o caso, o juiz entendeu que o consumidor não recebe explicações sobre a finalidade exata da coleta de dados e disse que “a palavra ‘desconto’ atua como um gatilho financeiro que ofusca qualquer reflexão sobre privacidade”. O magistrado determinou que a rede interrompa a prática de condicionar a concessão de descontos e promoções ao fornecimento obrigatório do número do CPF ou qualquer outro dado pessoal do consumidor, “garantindo que o preço promocional ofertado seja acessível a todos os clientes, independentemente de cadastro prévio ou fornecimento de informações”.

Deu um prazo máximo de 60 dias para a rede estabelecer uma política clara e destacada de consentimento em todos os pontos de venda, assegurando que o ingresso em efetivos programas de fidelidade ou a coleta de dados ocorra apenas após o repasse de informações claras ao consumidor sobre a finalidade do tratamento, o tempo de armazenamento e o eventual compartilhamento, de modo que a recusa do cliente não acarrete a perda do desconto comum do estabelecimento. Sobre a indenização de danos morais coletivos, fixada em R$ 10 milhões, o juiz determinou que o valor integral deverá ser revertido ao Fundo Estadual de Proteção dos Direitos Difusos (FEPDD).

Jornal da Cidade Online

 

Decreto de Trump contra PCC e CV, asfixia o crime organizado e causa pânico no Planalto

Enquanto a direita celebra o cerco implacável aos cartéis, Temer minimiza a medida e expõe e racha político em Brasília. A recente decisão do governo de Donald Trump de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO) continua a gerar fortes repercussões no cenário político nacional. Ao comentar a medida adotada pelos Estados Unidos, o ex-presidente Michel Temer (MDB) minimizou o potencial de interferência externa da decisão, adotando um posicionamento que se afasta do tom de alerta emitido pelo Palácio do Planalto.

Durante o Fórum de Lisboa, em Portugal, Temer afirmou que o decreto americano não afeta a soberania brasileira. De acordo com o ex-presidente, uma medida dessa natureza será naturalmente discutida e levada adiante em diálogo com as autoridades do Brasil, ressalvando apenas que a linha vermelha seria uma intervenção direta nas questões internas (cenário que ele desconsidera no momento). A postura de Temer diverge frontalmente da reação do atual governo brasileiro

O Ministério das Relações Exteriores e a cúpula do Executivo federal demonstraram forte contrariedade e preocupação com a medida assinada pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio. O Palácio do Planalto emitiu notas institucionais e vem articulando reuniões técnicas com o Tesouro dos EUA na tentativa de mitigar os impactos financeiros da decisão, sustentando formalmente que as facções não possuem motivação ideológica ou política para serem enquadradas no conceito legal de terrorismo.

Enquanto a esquerda e a diplomacia do atual governo veem a designação como um risco para a autonomia jurídica e econômica do Brasil (temendo restrições ao sistema financeiro e dificuldades na cooperação internacional), a oposição e parlamentares do espectro conservador receberam o anúncio com entusiasmo. 

Lideranças de direita vinham pressionando por uma postura mais firme contra a criminalidade organizada de alcance transnacional e comemoraram o decreto, que entra em vigor no dia 5 de junho de 2026. Alinhados à lógica de endurecimento contra o crime, deputados da oposição no Congresso Nacional já protocolaram novos projetos de lei para reformar a legislação antiterrorismo brasileira. 

O objetivo é alterar a Lei de 2016 para garantir que grandes organizações criminosas e cartéis de drogas violentos também recebam a classificação de terroristas dentro do território nacional, eliminando brechas jurídicas que atualmente limitam esse enquadramento a motivações exclusivamente xenofóbicas, raciais ou religiosas.

Diário do Poder

 

A sedução do poder

                            *Luiz Adriano Seabra

Há uma força antiga que atravessa os séculos sem jamais envelhecer. Ela esteve nos impérios, nas monarquias, nas revoluções, nos parlamentos, nos quartéis, nos púlpitos, nas corporações, nas ruas e até mesmo dentro das casas. Não possui ideologia fixa, partido permanente ou nacionalidade definida. Seu nome é poder.

O problema nunca foi a sua existência. Sociedades precisam de autoridade. Povos precisam de instituições. Famílias precisam de referências. O problema começa quando o poder deixa de ser instrumento para se tornar destino; quando deixa de servir a uma finalidade coletiva para servir apenas a si mesmo.

O poder pelo poder é uma espécie de vício. Como todo vício, alimenta-se da repetição. Quanto mais o indivíduo o experimenta, mais difícil se torna abandoná-lo. A autoridade passa a enxergar inimigos onde antes havia apenas divergências. O contraditório transforma-se em afronta. A crítica converte-se em ameaça. A pluralidade de ideias, essência da democracia e da inteligência humana, passa a ser percebida como obstáculo.

Nesse momento, a autoridade já não governa. Domina.

A história oferece exemplos abundantes dessa transformação. Alguns se apresentam com a brutalidade explícita dos tiranos. Outros vestem o figurino elegante das democracias modernas. Mudam os discursos, os slogans, as bandeiras e os símbolos. Permanecem os mesmos impulsos humanos: a necessidade de prevalecer, de subjugar, de impor ao outro a própria visão de mundo.

Nos tempos atuais, a política internacional parece um espelho ampliado dessas pulsões. A figura de Donald Trump tornou-se símbolo de uma concepção de poder baseada na confrontação permanente. Sua retórica encontra eco em milhões de pessoas que enxergam na força uma resposta para a complexidade dos problemas contemporâneos. A proposta de classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas, por exemplo, ultrapassa a esfera jurídica. Ela revela uma concepção de mundo na qual o poder se legitima pela capacidade de enquadrar, nomear e agir.

A questão não reside apenas em saber se tais grupos são terroristas ou não. O debate mais profundo diz respeito à tentação permanente de ampliar competências, estender influências e expandir zonas de intervenção. O poder raramente se satisfaz com seus limites.

Mas seria um erro imaginar que essa dinâmica pertence exclusivamente aos governantes. Ela habita igualmente os grupos criminosos, as milícias, as facções organizadas e todas as formas paralelas de autoridade. O método é semelhante. Muda apenas a linguagem. Onde o Estado utiliza leis e instituições, os grupos armados utilizam o medo. Em ambos os casos, a questão fundamental continua sendo a capacidade de impor a própria vontade. Talvez seja por isso que a humanidade avance tanto em tecnologia e tão pouco em sabedoria.

Vivemos a era das máquinas inteligentes, mas continuamos prisioneiros de impulsos primitivos. Ainda desejamos que nossa opinião prevaleça. Que nosso grupo vença. Que nosso candidato triunfe. Que nossa verdade seja reconhecida como única verdade possível.

No fundo, a disputa raramente é por justiça. Frequentemente é por pertencimento. E então surgem os fenômenos que corroem silenciosamente a vida pública: os egos hipertrofiados, a incapacidade de escutar, as inseguranças disfarçadas de convicção, a educação que forma técnicos, mas não cidadãos, a cultura que premia a aparência e despreza a reflexão. As violências tornam-se múltiplas. Algumas deixam marcas no corpo. Outras ferem a alma coletiva.

Há violências explícitas, estampadas nos noticiários. E há violências invisíveis, praticadas diariamente por discursos de intolerância, preconceito, exclusão e desprezo. Ambas nascem da mesma fonte: a incapacidade de reconhecer a humanidade do outro.

Talvez os psicólogos encontrem explicações nas inseguranças individuais. Os sociólogos, nas estruturas sociais. Os educadores, nas falhas da formação. Os geneticistas, em predisposições herdadas. Todos possuem parte da razão. Nenhum possui a razão inteira.

O ser humano é uma construção inacabada

Por isso, toda civilização representa uma tentativa permanente de domesticar aquilo que existe de mais perigoso em nós mesmos. A democracia, o direito, a educação, a arte e a cultura não foram criados para produzir unanimidades. Foram criados para impedir que a força se tornasse o único argumento possível.

Quando essas barreiras enfraquecem, o poder avança. E quando o poder avança sem limites, instala-se uma curiosa inversão moral: os princípios passam a servir aos interesses; as leis passam a servir às conveniências; a verdade passa a servir às narrativas.

Nesse cenário, o cidadão comum observa perplexo um mundo onde todos parecem reivindicar autoridade e poucos demonstram responsabilidade. Onde todos exigem direitos para si e poucos aceitam deveres para com os outros. Talvez a pergunta decisiva não seja quem exerce o poder, mas o que o poder revela sobre quem o exerce.

Porque a autoridade, quando submetida a limites éticos, pode produzir justiça. Sem esses limites, produz apenas obediência. E a obediência, por si só, jamais construiu uma sociedade verdadeiramente livre. Ao final, permanece a inquietação que atravessa a literatura, a filosofia e a experiência humana. Talvez não sejamos ameaçados apenas pelos tiranos que conhecemos, mas também pelos pequenos tiranos que carregamos dentro de nós.

Por isso a advertência de Guimarães Rosa continua ecoando como uma sentença destinada a todas as épocas: viver é muito perigoso. Perigoso porque o mal raramente se apresenta como mal. Quase sempre chega vestido de certeza, de patriotismo, de justiça, de ordem ou de salvação. E é justamente nesse instante que a liberdade corre maior risco.

*O autor de “Vicente” (Editora Quixote+Do), Luiz Adriano Seabra foi âncora de telejornais da TV Manchete Rio de Janeiro e na Radiobrás/TVE.

 

TSE vai dividir R$ 4,9 bilhões do fundo eleitoral aos partidos. PL e PT receberão maiores fatias

O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) divulgou a divisão dos valores do fundo eleitoral de financiamento de campanha. Ao todo, cerca de R$ 4,9 bilhões serão distribuídos entre 30 partidos.

O PL vai receber a maior fatia do fundo: R$ 881,6 milhões. Em seguida aparece o PT, com R$ 615,3 milhões, seguido pelo União Brasil, com 526,2 milhões. Divisão considera a representatividade dos partidos no Congresso e o desempenho nas últimas eleições. Como PL e PT elegeram as maiores bancadas na Câmara e Senado, recebem mais recursos.

Veja quanto cada partido vai receber:

  • PL: R$ 881.657.477,34
  • PT: R$ 615.367.980,20
  • União Brasil: R$ 526.242.858,11
  • PSD: R$ 421.008.404,89
  • PP: R$ 417.067.738,40
  • MDB: R$ 400.002.399,99
  • Republicanos — R$ 348.587.815,77
  • Podemos: R$ 245.969.763,68
  • PDT: R$ 169.285.643,92
  • PSB:R$ 152.252.956,07
  • PSDB: R$ 147.895.172,40
  • PSOL: R$ 131.506.284,42
  • Solidariedade: R$ 88.526.669,83
  • Avante: R$ 72.516.777,19
  • PRD: R$ 71.819.227,37
  • Cidadania: R$ 60.714.157,11
  • PCdoB: R$ 60.531.914,25
  • PV: R$ 45.183.873,26
  • Novo: R$ 37.044.203,26
  • Rede: R$ 35.803.821,03
  • Agir: R$ 3.307.679,85
  • DC: R$ 3.307.679,85
  • Democrata: R$ 3.307.679,85
  • Missão: R$ 3.307.679,85
  • Mobiliza: R$ 3.307.679,85
  • PCB: R$ 3.307.679,85
  • PCO: R$ 3.307.679,85
  • PRTB: R$ 3.307.679,85
  • PSTU: R$ 3.307.679,85
  • UP: R$ 3.307.679,85

Os valores podem ser utilizados para despesas relacionadas à campanha. Gastos incluem produção de material gráfico, impulsionamento de conteúdo na internet, contratação de pessoal, aluguel de espaços para eventos, transporte e serviços de comunicação.

UOL NOTÍCIAS

 

Delação de Vorcaro a PF cita contrato de R$ 50 milhões com esposa de Alexandre de Moraes

Documento apresentado à Polícia Federal mencionava acordo que garantiria pagamentos após venda do Banco Master, mas versão não convenceu. A primeira proposta de delação premiada apresentada pelo banqueiro Daniel Vorcaro, rejeitada pela Polícia Federal em maio, trouxe uma nova informação sobre a relação comercial entre empresas ligadas ao empresário e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes.

Segundo o relato, um novo contrato teria sido elaborado em agosto de 2025 prevendo o pagamento de R$ 50 milhões ao escritório Barci de Moraes. O documento, porém, não chegou a ser assinado. De acordo com a versão de Vorcaro, a medida buscava garantir a continuidade dos pagamentos em um contrato anterior firmado com o Master. O acordo estabelecia repasses mensais de R$ 3,6 milhões entre janeiro de 2024 e janeiro de 2027, totalizando cerca de R$ 130 milhões.

A justificativa apresentada à Polícia Federal era de que a venda do banco, já considerada iminente à época, poderia interromper a execução do contrato. A delação, no entanto, não esclareceu por que outra empresa ligada a Daniel Vorcaro assumiria a obrigação nem detalhou a origem do valor de R$ 50 milhões previsto no novo documento. Outro ponto que chamou a atenção foi a ausência de registros da atuação do escritório junto ao Banco Central, Cade, Receita Federal e Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, órgãos nos quais o contrato original previa prestação de serviços.

As entidades informaram não possuir registros dessa atuação. Dados enviados pela Receita Federal à CPI do Crime Organizado apontam que o Banco Master declarou pagamentos de R$ 80,2 milhões ao escritório sob a rubrica de serviços jurídicos e consultoria. O montante corresponde a 22 das 36 parcelas previstas no contrato. Os pagamentos foram suspensos após a prisão de Vorcaro e a liquidação do banco. O contrato apreendido durante a Operação Compliance Zero passou a integrar os anexos da delação, mas a narrativa não convenceu os investigadores e contribuiu para a rejeição da proposta.

Em nota, o escritório Barci de Moraes afirmou que não firmou qualquer novo contrato com Daniel Vorcaro ou empresas ligadas ao empresário e declarou não ter recebido valores relacionados ao documento mencionado. Alexandre de Moraes não comentou o caso.

Diário do Poder