*Luiz Adriano Seabra
Há uma força antiga que atravessa os séculos sem jamais envelhecer. Ela esteve nos impérios, nas monarquias, nas revoluções, nos parlamentos, nos quartéis, nos púlpitos, nas corporações, nas ruas e até mesmo dentro das casas. Não possui ideologia fixa, partido permanente ou nacionalidade definida. Seu nome é poder.
O problema nunca foi a sua existência. Sociedades precisam de autoridade. Povos precisam de instituições. Famílias precisam de referências. O problema começa quando o poder deixa de ser instrumento para se tornar destino; quando deixa de servir a uma finalidade coletiva para servir apenas a si mesmo.
O poder pelo poder é uma espécie de vício. Como todo vício, alimenta-se da repetição. Quanto mais o indivíduo o experimenta, mais difícil se torna abandoná-lo. A autoridade passa a enxergar inimigos onde antes havia apenas divergências. O contraditório transforma-se em afronta. A crítica converte-se em ameaça. A pluralidade de ideias, essência da democracia e da inteligência humana, passa a ser percebida como obstáculo.
Nesse momento, a autoridade já não governa. Domina.
A história oferece exemplos abundantes dessa transformação. Alguns se apresentam com a brutalidade explícita dos tiranos. Outros vestem o figurino elegante das democracias modernas. Mudam os discursos, os slogans, as bandeiras e os símbolos. Permanecem os mesmos impulsos humanos: a necessidade de prevalecer, de subjugar, de impor ao outro a própria visão de mundo.
Nos tempos atuais, a política internacional parece um espelho ampliado dessas pulsões. A figura de Donald Trump tornou-se símbolo de uma concepção de poder baseada na confrontação permanente. Sua retórica encontra eco em milhões de pessoas que enxergam na força uma resposta para a complexidade dos problemas contemporâneos. A proposta de classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas, por exemplo, ultrapassa a esfera jurídica. Ela revela uma concepção de mundo na qual o poder se legitima pela capacidade de enquadrar, nomear e agir.
A questão não reside apenas em saber se tais grupos são terroristas ou não. O debate mais profundo diz respeito à tentação permanente de ampliar competências, estender influências e expandir zonas de intervenção. O poder raramente se satisfaz com seus limites.
Mas seria um erro imaginar que essa dinâmica pertence exclusivamente aos governantes. Ela habita igualmente os grupos criminosos, as milícias, as facções organizadas e todas as formas paralelas de autoridade. O método é semelhante. Muda apenas a linguagem. Onde o Estado utiliza leis e instituições, os grupos armados utilizam o medo. Em ambos os casos, a questão fundamental continua sendo a capacidade de impor a própria vontade. Talvez seja por isso que a humanidade avance tanto em tecnologia e tão pouco em sabedoria.
Vivemos a era das máquinas inteligentes, mas continuamos prisioneiros de impulsos primitivos. Ainda desejamos que nossa opinião prevaleça. Que nosso grupo vença. Que nosso candidato triunfe. Que nossa verdade seja reconhecida como única verdade possível.
No fundo, a disputa raramente é por justiça. Frequentemente é por pertencimento. E então surgem os fenômenos que corroem silenciosamente a vida pública: os egos hipertrofiados, a incapacidade de escutar, as inseguranças disfarçadas de convicção, a educação que forma técnicos, mas não cidadãos, a cultura que premia a aparência e despreza a reflexão. As violências tornam-se múltiplas. Algumas deixam marcas no corpo. Outras ferem a alma coletiva.
Há violências explícitas, estampadas nos noticiários. E há violências invisíveis, praticadas diariamente por discursos de intolerância, preconceito, exclusão e desprezo. Ambas nascem da mesma fonte: a incapacidade de reconhecer a humanidade do outro.
Talvez os psicólogos encontrem explicações nas inseguranças individuais. Os sociólogos, nas estruturas sociais. Os educadores, nas falhas da formação. Os geneticistas, em predisposições herdadas. Todos possuem parte da razão. Nenhum possui a razão inteira.
O ser humano é uma construção inacabada
Por isso, toda civilização representa uma tentativa permanente de domesticar aquilo que existe de mais perigoso em nós mesmos. A democracia, o direito, a educação, a arte e a cultura não foram criados para produzir unanimidades. Foram criados para impedir que a força se tornasse o único argumento possível.
Quando essas barreiras enfraquecem, o poder avança. E quando o poder avança sem limites, instala-se uma curiosa inversão moral: os princípios passam a servir aos interesses; as leis passam a servir às conveniências; a verdade passa a servir às narrativas.
Nesse cenário, o cidadão comum observa perplexo um mundo onde todos parecem reivindicar autoridade e poucos demonstram responsabilidade. Onde todos exigem direitos para si e poucos aceitam deveres para com os outros. Talvez a pergunta decisiva não seja quem exerce o poder, mas o que o poder revela sobre quem o exerce.
Porque a autoridade, quando submetida a limites éticos, pode produzir justiça. Sem esses limites, produz apenas obediência. E a obediência, por si só, jamais construiu uma sociedade verdadeiramente livre. Ao final, permanece a inquietação que atravessa a literatura, a filosofia e a experiência humana. Talvez não sejamos ameaçados apenas pelos tiranos que conhecemos, mas também pelos pequenos tiranos que carregamos dentro de nós.
Por isso a advertência de Guimarães Rosa continua ecoando como uma sentença destinada a todas as épocas: viver é muito perigoso. Perigoso porque o mal raramente se apresenta como mal. Quase sempre chega vestido de certeza, de patriotismo, de justiça, de ordem ou de salvação. E é justamente nesse instante que a liberdade corre maior risco.
*O autor de “Vicente” (Editora Quixote+Do), Luiz Adriano Seabra foi âncora de telejornais da TV Manchete Rio de Janeiro e na Radiobrás/TVE.