Banco do Brasil e Correios: O dinheiro muda de bolso e o contrato bilionário carece de explicações

                                                                      *Por Jayme Rizolli

O Banco do Brasil anunciou a assinatura de um contrato de aproximadamente R$ 2,3 bilhões com os Correios para a prestação de serviços postais pelos próximos cinco anos. Sob o aspecto jurídico e operacional, a contratação possui justificativas conhecidas: a Empresa Brasileira de Correios detém o monopólio de parte dos serviços postais e mantém uma capilaridade difícil de ser encontrada na iniciativa privada.

Mas a notícia desperta uma reflexão que vai além do contrato

Os Correios vêm acumulando prejuízos bilionários e buscando novas fontes de receita para equilibrar suas contas. Ao mesmo tempo, uma empresa igualmente controlada pelo governo federal firma um contrato bilionário com a estatal. A pergunta é inevitável: esse dinheiro representa riqueza nova para o Estado ou apenas circula dentro da própria estrutura pública?

Imagine uma família.

O pai reúne todo o dinheiro da casa e o distribui para administrar as despesas. Um dos filhos começa a apresentar dificuldades financeiras. Então, o pai orienta o outro filho a contratar alguns serviços do irmão que está em dificuldades.

O dinheiro realmente muda de mãos. O irmão que enfrentava problemas melhora momentaneamente seu caixa. Mas a riqueza da família continua exatamente a mesma. Não entrou um único centavo novo na casa; apenas houve uma redistribuição dos recursos existentes. Guardadas as diferenças entre uma família e a administração pública, a lógica ajuda a compreender a dúvida que muitos brasileiros fazem.

O Banco do Brasil e os Correios pertencem ao mesmo controlador: a União.

Quando uma empresa estatal celebra um contrato bilionário com outra estatal, existe uma prestação de serviços que deve ser remunerada. Isso faz parte da atividade empresarial. Entretanto, o cidadão tem o direito de perguntar se esse tipo de operação representa uma solução estrutural para os problemas financeiros dos Correios ou apenas oferece um alívio temporário no caixa de uma empresa pública que continua enfrentando dificuldades. A questão torna-se ainda mais relevante quando lembramos que o Brasil arrecada cifras trilionárias em impostos todos os anos e, ainda assim, convive com déficits, aumento da dívida pública e necessidade de novos empréstimos.

Os Correios, por sua vez, também vêm ampliando sua atuação em serviços financeiros, conta digital, renegociação de dívidas e outras iniciativas comerciais na tentativa de aumentar receitas. São medidas que podem contribuir para a sustentabilidade da empresa, mas que não substituem uma gestão eficiente nem eliminam a necessidade de enfrentar as causas dos prejuízos.

O contribuinte não espera milagres das empresas públicas. Espera responsabilidade.

Porque, quando uma estatal prospera, toda a sociedade se beneficia. Mas quando ela acumula prejuízos sucessivos, a preocupação deixa de ser apenas empresarial e passa a ser coletiva. No final, permanece uma pergunta simples, mas importante:

Estamos diante de uma recuperação construída por eficiência administrativa ou apenas assistindo ao dinheiro mudar de bolso dentro da mesma estrutura estatal? Essa é uma resposta que interessa não apenas aos economistas, mas a todos os brasileiros que, diariamente, ajudam a financiar o Estado por meio dos impostos que pagam.

Jayme Rizolli

Jornalista.

 

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