A VOVÓ E O PEQUERRUCHO

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José Olívio Cardoso Rosa

Vovó Nerilva, jovem procedente de uma família de classe média que ainda guardava consigo os hábitos interioranos de apreciar subir nas goiabeiras, nos cajueiros, nas laranjeiras e demais árvores frutíferas existentes no quintal de sua casa, por tais motivos punida com o devido rigor por seus pais quando tomavam conhecimento das peripécias da menina, alegando que tal postura não se coadunava com os hábitos femininos, devendo, portanto, cultivar e até mesmo enriquecer-se com brinquedos mais alusivos, tais como as bonecas e brincadeira de roda. Bonecas essas, inexistentes no comércio local, sendo improvisado por sua mãe dando azo a sua aptidão em poder confeccionar as bonecas de canarana, farto material existentes às margens do rio que banhava a sua pequena cidade. Retirando para tanto, o primeiro invólucro, chamado de casca e aproveitando o miolo macio e aderente, portando grande quantidade de água, cortando-as com bastante sutileza e, milimetricamente dividindo as peças e após isto, ia montando a sua obra de arte, cuja dedicação e aptidão chegavam quase à perfeição das inúmeras bonecas confeccionadas pelos fabricantes.

                         Ficava assim estabelecida, que subir ou trepar em árvores era tarefa só para os meninos, não sendo afeito as meninas, sob pena de haver por parte dos pais uma leve reprimenda, ou punição severa e em alguns casos até mesmo punidas com atos truculentos. Como sempre, esse rigor, era tarefa do pai, temido só em falar, ou até mesmo, pelo seu olhar repreensivo, ás vezes não se fazendo necessário o uso do chicote ou cipó de goiabeira, corriqueiramente usados nos corretivos familiares, fazendo com que sentissem na pele o amargor ou o azedume característico das  tamarindos.

                         A educação rígida não só era desenvolvida em sua casa no seio familiar, como também se estendia a escola, pois as recomendações feitas pelos pais eram seguidas ipsislitteris pela mestra escola, geralmente professoras leigas sem formação acadêmica, mas de grande sabedoria, traduzindo fielmente aquilo que aprendera, bem como, cumprindo rigorosamente os ditames dos pais dos alunos, que, quando seus filhos faziam alguma traquinagem junto à escola, como se dizia no linguajar da época, o comunicado aos pais era feito pela professora e o portador do bilhete era o próprio estudante. Imaginem o tamanho do constrangimento a que eram submetidos, se entregassem tal escrito seriam indubitavelmente punidos, ou vice-versa, o castigo era ainda maior ou mais rigoroso, pois, além de perder a confiança, não merecendo mais o carinho e a dedicação de outrora, assim como,o amor fraternal, perdendo, por conseguinte a liberdade dantes existente; gesto duro, eminentemente duro, porém necessário por fazer parte da formação para a vida.

                        Com o passar do tempo, as meninas e meninos de ontem, repentinamente, se transformaram em rapazes e moças de hoje; terminando assim, a primeira etapa de sua educação ao lado dos pais.

*José Olívio Cardoso Rosa é advogado, poeta e escritor

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