O GRANDE DIA

                                                                                                                                  Por Mário Rogério

Carlinhos num piscar de olhos percorreu a Autopeças; não viu mais ninguém, — todos se foram… — pudera, já passa das 12h00. Ah…! hoje é feriado, dia de São Pedro. Caminhou até a porta de saída da Loja.

Em passadas largas chegou a Rua Portugal; olhou o céu, tempo estável, apenas algumas nuvens rabo de galo. No Mercado das Tulhas, atendeu uma ligação de Adalberto. Ele e, Renato estavam chegando para o almoço. Degustaram bode no leite de coco na barraca da Mocinha. Rumaram para Praça da Saudade. Júlio Sarmento, no bar do Josias, já os esperava com a cerveja sobre a mesa, o papo rolou tarde e noite adentro.

O burburinho no sentido do Largo de São Pedro prenunciava um grande festejo. Júlio se dirigiu aos amigos. —  Pessoal, vamos assegurar lugar na barraca da Dedé, lá teremos boa visão da exibição dos bois, das danças: do lelê, cacuriá, tambor de crioula. Carlinhos, arrematou — Vamos, não posso perder a apresentação do boi da Maioba!

Desceram a rua do Norte, percorreram o Largo da Madre Deus até a ladeira que dá acesso ao Largo de São Pedro, local do tradicional encontro do bumba meu boi e, festejo do Santo padroeiro dos pescadores. Uma multidão de apaixonados pelo São João do Maranhão; devotos, pescadores, turista, brincantes; se aglomeravam na descida até chegar as barracas e do pátio de apresentação dos festejos juninos.

A barraca de Dona Dedé, próxima ao pátio, não difere das outras: coberta de palha de buriti, ou babaçu, decorada com adereços juninos: bandeirolas coloridas, balões multicores. Carlinhos fez o pedido. — Dedé, por favor, um véu de noiva, arroz de cuxá, torta de camarão e um vatapá. Renato com o cardápio, falou — tem mais…: peixe pedra, arroz de camarão, arroz de sururu, Maria Isabel, torta de camarão, torta de sururu, vatapá, bolos,…mingau de milho, e de tapioca. — Vou pedir, peixe pedra, arroz de camarão,…quem me acompanha?

Os amigos se empanturravam, mas, atentos, ao mais importante signo do Maranhão, ligado à fé e a identidade do seu povo; o bumba meu boi. Representado pelo Boi da Maioba ao som das matracas, pandeirões, tambores-onça e maracás, davam ritmo, frenético ao gingado das índias e índios, dos caboclos de fitas, dos caboclos de pena e vaqueiros, que se apresentava no palco em frente a capela.

A matraca é um instrumento de percussão imprescindível á brincadeira. Dois pedaços de madeira que ao ir de encontro ao outro, emite um som próprio e contagiante. Os fãs e integrantes do boi motivados com a envolvente toada; fazem com que o ritmo dos instrumentos se torne únicos. Carlinhos cantava e dançava a toada do Maioba…,

“Se não existisse o Sol
Como seria pra Terra se aquecer
E se não existisse o mar
Como seria pra natureza sobreviver

Se não existisse o luar
O homem viveria na escuridão
Mas como existe tudo isso meu povo
Eu vou guarnecer meu batalhão de novo”

De retorno à barraca, Carlinhos foi instigado por Renato a falar sobre a história do boi tanto desejado por Catirina. Ele respondeu, — o Auto gira em torno da morte e ressurreição de um boi. A brincadeira do boi conta, por meio de danças, músicas e vestimentas, a história de Pai Francisco e sua mulher, Catirina, que grávida, sentiu desejo de comer a língua do boi mais precioso da fazenda onde trabalhava. Para satisfazer as vontades da amada, Pai Francisco matou o boi – causando a ira de seu patrão. Mas, com ajuda do pajé, o boi ressuscitou, deixando todos felizes. Finalizou.

No palco das apresentações, além do Maioba, se exibiram diversos sotaques com suas características próprias: no vestuário, nos instrumentos, na cadência da toada, e na coreografia. Entre eles os sotaques: Matraca, Zabumba, Orquestra, Costa de Mão, Sotaque da Baixada, empunhando pandeirões, entoando seus ritmos, batidas, cantavam toadas, num ambiente festivo e, profusão de cores.

Após a apresentação os batalhões sobem as escadarias que dá acesso a Capela para render homenagens, receber a benção, pagar promessas feitas ao santo protetor, acender velas e, agradecer o sucesso da brincadeira durante a temporada junina.

Logo, Sol a pino, Carlinhos, amigos e admiradores, seguiram o cortejo dos batalhões de boi, ao som das matracas, zabumbas e pandeirões, cantando toadas até o bairro do João Paulo, local em que se concentram para louvar São Marçal e encerrar as festividades juninas do Maranhão.

Por conta disso, a festa junina de São Pedro por tudo que ela representa ao envolver fé, devoção, arte, cultura, culinária e tradição, será sempre aguardada pelos maranhenses e turistas, como o grande dia.

Mário Rogério Araújo Sousa é engenheiro agrônomo e extensionista aposentado da EMATER-MA

 

 

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