Diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, durante entrevista coletiva em Genebra
A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou hoje (11) uma pandemia do coronavírus, num reconhecimento de que a mera estratégia de conter a proliferação da doença já não seria suficiente. A classificação significa que uma transmissão recorrente está ocorrendo em diferentes partes do mundo e de forma simultânea.
Na prática, ao anunciar a pandemia, a agência de saúde indica que governos devem trabalhar não mais para apenas conter um caso. Mas atuar também para atender uma parcela da população mais ampla e vulnerável. Estratégias direcionadas apenas para identificar casos e isolar pessoas precisam ser trocadas por um plano sanitário que evite mortes e que atua para toda a população.
A mudança no status não significa que a taxa de letalidade tenha sido incrementada. Mas é um chamado da OMS apela para que governos adotem medidas mais duras e agressivas. Em apenas uma semana, o número de países afetados passou de 45 para 114. O Brasil tem ao menos 35 casos confirmados. Até agora, a entidade insistia que a proliferação em grande escala apenas estava sendo registrada em cidades chinesas, com o casos fora do país asiático ainda podendo ser contidos. Isso, em termos técnicos, não representaria uma pandemia e, portanto, a entidade resistia em passar para um nível superior de alerta.
Mas, nos últimos dias, a agência com sede em Genebra já vinha alertando que a capacidade de sistemas de saúde em frear o surto estava se esgotando. O risco global foi elevado na semana passada para “muito elevado” e preparações para uma nova fase começaram a ser feitas. Até a semana passada, a OMS estimava existia uma “janela de oportunidade” para conter o vírus. Mas tal fresta estava “se fechando”. Ainda assim, a entidade passou a ser questionada por seu comportamento.
Enquanto Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, fazia o anúncio na sala de operações da entidade, telões pelas paredes mostravam a dimensão do surto pelo mundo. 118 mil casos confirmados e mais de 4,2 mil mortes. Desse total, mais de 80 mil casos estão na China. Mas a alta no número de casos na Itália, Irã e Coreia do Sul e a expansão para novas regiões transformaram a maneira pela qual a OMS reage à situação.
Mas avaliação da OMS é de que o número de casos deve aumentar ainda mais nos próximos dias. Mas Tedros insiste que essa é a primeira pandemia que pode ser contida.
Falta de Ação
Um dos objetivos da OMS com a declaração é a de conscientizar governos a agir, enquanto a entidade insiste que muitos continuam sem entender a dimensão do problema. Tedros, pedindo calma e solidariedade internacional, deixou claro que o uso da palavra “pandemia” deve ser usada com “cuidado”, e ciente do que isso pode representar. Mas alertou que estava preocupado com a negligência de parte da comunidade internacional.
Para o diretor, existe ainda um “nível alarmante de falta de ação” por parte de alguns governos. A OMS se diz preocupada com a falta de medidas para detectar casos e critérios para aceitar pacientes.
“Uma epidemia é um teste de confiança entre populações e governos e teste de resistência”, declarou Michael Ryan, diretor de operação da OMS. A decisão, segundo fontes na OMS, exigiu um amplo debate interno e com consultores, justamente diante do risco que a declaração poderia gerar.
“Não podemos cometer um erro agora”, disse Tedros. “Falar que é pandemia não significa que devemos sair da estratégia de contenção para mitigação. Não estamos falando isso. Mas sim uma estratégia completa e que contenção deve ser o pilar central”, insistiu.
A preocupação principal da OMS é de que, ao declarar a pandemia, governos abandonem o esforço de contenção. “90% dos 118 mil casos estão em apenas quatro países”, disse. “Seria um erro abandonar a contenção. Neste momento, 81 países ainda não têm casos e devem fazer de tudo para impedir que o vírus chegue. 57 países têm menos de dez casos. Eles podem cortar. Esse é o primeiro coronavírus a ser uma pandemia. Mas é o primeiro que poderá ser controlado”, indicou.
Michael Ryan deixou claro que o momento é de ação. “Esse é um alerta para todos os governos do planeta”, disse. “Acordem. O vírus pode estar a caminho”, insistiu.
Segundo ele, cada governo agora deve decidir de fechar escolas ou não e que tipo de decisões tomar. Mas o especialista apela: “não usem essa declaração para justificar um abandono da estratégia de contenção. Não é uma desculpa para desistir. Ainda podemos parar isso”, insistiu. Ryan acredita que governos precisam rever suas estratégias a partir de agora e estabelecer suas prioridades. “Nada disso vai mudar o que fazemos. Apenas pedimos medidas mais agressivas e duras”, insistiu.
Uma das questões centrais é o impacto de um número elevado de casos sobre sistemas de saúde já frágeis. “Governos precisam avaliar se vão aceitar que a doença se prolifere ou apenas focar em reduzir fatalidades”, disse. Um exemplo usado por Ryan é o da Itália, onde 900 pessoas em UTI, colocando serviços em ponto de ruptura. “Esse não é mais uma questão apenas para o ministério da Saúde. Mas para sociedades inteiras”, completou.
Fonte: UOL Notícias