Por Carlos Arouck
Existe um momento na vida em que a política deixa de provocar indignação e passa a provocar cansaço. Não porque as convicções tenham desaparecido, nem porque tenhamos desistido de defender aquilo em que acreditamos, mas porque chega a hora em que percebemos que o tempo corre muito mais depressa do que as mudanças pelas quais tanto lutamos.
Pertencemos a uma geração que acreditou no Brasil. Acreditamos que o país poderia encontrar seu caminho, superar suas contradições, fortalecer suas instituições e oferecer aos brasileiros um futuro diferente daquele que tantas vezes nos foi apresentado como inevitável.
Acompanhamos governos, crises, escândalos, promessas e sucessivas tentativas de reconstrução nacional. Votamos, protestamos, denunciamos, escrevemos e debatemos. Em cada eleição, renovamos a esperança de que as escolhas feitas nas urnas pudessem abrir um novo capítulo da nossa história.
Passamos praticamente todo o século XXI combatendo o que consideramos a degradação política e moral do Brasil. Vimos estruturas de poder se consolidarem para além da disputa eleitoral, alcançando a própria consciência de parte da sociedade. Mas o tempo passou e para muitos de nós, passou depressa demais.
Envelhecemos à espera de um país que nunca chegou. Essa talvez seja uma das constatações mais dolorosas de quem atravessou décadas acreditando que a próxima eleição, o próximo governo ou a próxima mudança política finalmente colocaria o Brasil no caminho desejado.
O problema já não é apenas o resultado de uma disputa eleitoral. É compreender que muitos brasileiros que votaram nestas eleições, defenderam suas convicções e depositaram suas esperanças nas urnas talvez não tenham tempo de vida suficiente para assistir ao país que desejavam construir. São homens e mulheres que chegaram à velhice sem ver realizadas as mudanças pelas quais lutaram durante boa parte da existência. Para eles, o futuro deixou de ser uma promessa distante. Tornou-se uma questão de tempo, e o tempo não espera.
Não foram apenas anos de espera. Foram anos que deixamos de viver plenamente, consumidos pela expectativa de uma transformação que parecia sempre próxima e que, a cada amanhecer, se afastava um pouco mais. Assistimos à consolidação de estruturas de poder, à repetição de práticas que julgávamos superadas e à sucessão de conflitos que alimentaram a descrença. Acreditamos que a verdade prevaleceria sobre a conveniência, que as instituições resistiriam às tentações do poder e que a democracia seria capaz de corrigir seus próprios desvios.
O tempo, juiz silencioso e implacável, não devolve os anos sacrificados. Há uma crueldade particular em perceber que dedicamos a melhor parte da existência a uma batalha sem o desfecho esperado.
Envelhecemos lutando. Enquanto lutávamos, a vida passou.
Nossos filhos cresceram, constituíram suas famílias e começaram a enfrentar os mesmos problemas que atravessaram nossa juventude. Queríamos entregar-lhes uma nação mais livre, mais justa, mais segura e com oportunidades.
Não imaginávamos que tantas das nossas preocupações continuariam presentes quando chegássemos à velhice. Hoje olhamos para os filhos e netos com a inquietação de quem teme deixar como herança aquilo que passou a vida tentando mudar.
Existe uma diferença entre perder uma eleição e sentir que uma geração inteira perdeu a oportunidade de ver concretizado o país pelo qual lutou. A alternância de poder faz parte da democracia. O que angustia é a sensação de que os problemas permanecem, as estruturas se reorganizam e as esperanças são novamente adiadas, enquanto os anos de quem espera não podem ser recuperados.
A reconstrução de uma nação exige décadas; a existência humana não admite prorrogações. Essa é a dimensão mais dolorosa da frustração: não apenas a possibilidade de não vermos o Brasil que sonhamos, mas a consciência de que talvez já não tenhamos a juventude, a disposição ou o tempo necessários para acompanhar sua reconstrução.
Ao longo dessa caminhada, aprendemos que nem sempre a razão vence, que nem sempre a verdade prevalece e que nem sempre as instituições correspondem à confiança que a sociedade deposita nelas. O mais preocupante é perceber que a disputa deixou de ser apenas entre projetos de governo. Passou a envolver a própria compreensão de democracia, liberdade, justiça e limites do poder. Quando uma sociedade começa a tratar como normal aquilo que antes considerava inaceitável, alguma coisa muito séria está acontecendo.
Há uma tragédia silenciosa em chegar ao entardecer da vida e descobrir que a pátria pela qual se lutou continua sendo uma promessa adiada. É uma espécie de exílio dentro da própria terra. Nós ainda tivemos o direito de sonhar com outro Brasil. Receio que nossos filhos e netos recebam um país no qual até o sonho tenha se tornado um luxo.
Talvez não tenhamos cometido outro erro senão acreditar que a história caminharia necessariamente em direção ao progresso. Mas a história não tem compromisso com nossas esperanças. Não sabemos se veremos a recuperação das instituições, o reencontro do país com seus valores ou a transformação que tantas vezes esperamos. Essa incerteza precisa ser encarada sem ilusões.
Ainda assim, não podemos confundir o esgotamento com a ausência de responsabilidade. Não temos o direito de exigir que nossos filhos pensem exatamente como nós, mas temos o dever de transmitir-lhes valores que não podem ser negociados: liberdade, honestidade, responsabilidade, respeito à lei e amor à pátria. O silêncio dos que conhecem os erros do passado pode se tornar a oportunidade daqueles que desejam repeti-los.
O Brasil não pertence a um partido, a um presidente, a um tribunal ou a qualquer grupo que se considere dono do poder. Pertence a todos os brasileiros, inclusive àqueles que ainda nem nasceram. Essa consciência precisa sobreviver às nossas derrotas, às nossas decepções e ao cansaço de uma geração.
Talvez o destino de muitos que votaram nestas eleições seja não conhecer o resultado das mudanças que sonharam. Talvez não estejam vivos quando o país finalmente encontrar o caminho que desejavam. É uma constatação difícil, mas real para quem já chegou à terceira idade e percebe que a vida não oferece o mesmo horizonte de possibilidades de décadas atrás.
O maior fracasso de uma geração não seria perder uma batalha política. Seria desistir de transmitir às próximas gerações as razões pelas quais vale a pena continuar lutando. Envelhecemos esperando um Brasil diferente. Talvez não sejamos nós a colher os frutos dessa espera. Mas que nossos filhos não precisem passar a vida inteira esperando aquilo que nós não conseguimos construir. Porque o Brasil não pode ser apenas o país das esperanças adiadas.
Policial Federal. É formado em Direito e Administração de Empresas