Analista de segurança aponta caminhos para a retomada dos territórios dominados pelo narco terrorismo

Em entrevista exclusiva à Revista A Verdade, o policial e analista de segurança pública Davidson Abreu traça um diagnóstico duro da segurança no Brasil. Para ele, o crime organizado se tornou o principal desafio estrutural do país, alimentado por décadas de abandono político, normalização de absurdos e interferências no sistema de Justiça. Otimista com a possibilidade de um governo de Flávio Bolsonaro, Abreu defende medidas de impacto simbólico imediato, mas alerta para a necessidade de ações permanentes e estruturais. A conversa aborda desde a classificação de facções como narco terroristas até a retomada de territórios sob domínio do crime, confira:

Revista A Verdade: Na sua avaliação, quais são hoje os três maiores desafios estruturais da segurança pública no Brasil? Por que esses problemas se agravaram nos últimos anos?

Davidson Abreu:

O crime organizado é, com certeza, o maior desafio. Em seguida, a necessidade de uma alteração drástica da Lei de Execução Penal. E outra coisa de que poucos falam: o aparelhamento da esquerda nos tribunais. Juízes causam muita insegurança jurídica. Criou-se uma liberdade excessiva na interpretação das leis. É comum o advogado saber qual vara terá melhor possibilidade de resultado, independentemente da matéria. Esses problemas se agravam há décadas, devido ao abandono das questões de segurança pública e à normalização dos absurdos por políticos, imprensa e pela própria sociedade.

Revista A Verdade: Com a possível eleição de Flávio Bolsonaro, qual a sua expectativa realista sobre mudanças concretas na segurança pública?

Davidson Abreu:

Estou muito otimista com um possível governo de Flávio. Ele colocou o recém-eleito Guilherme Derrite na vanguarda. Conheço o futuro senador: além de competente, é empenhado e técnico no assunto.

O primeiro impacto das propostas é mostrar que o clima mudou. Isso dá grande incentivo às forças de segurança e um recado claro aos criminosos. Acredito que a medida com retorno mais rápido seja a classificação das organizações criminosas como terroristas, alinhada ao Escudo das Américas. A redução da maioridade penal e a criação de novas vagas em presídios serão importantes, mas terão efeito mais demorado.

Revista A Verdade: O que deve ser prioritário no curto prazo (primeiros 100 dias ou primeiro ano) de um novo governo em matéria de segurança pública?

Davidson Abreu:

Os primeiros 100 dias são muito importantes. Primeiro, o presidente deve tomar as medidas administrativas e as que podem ser feitas por decreto, sem necessidade do Congresso. Em seguida, avançar com as medidas mais polêmicas, aproveitando o novo momento político, em que a aprovação fica mais fácil.

Revista A Verdade: Declarar PCC, Comando Vermelho e milícias como organizações terroristas facilita operações, muda o regime penal e a cooperação internacional?

Davidson Abreu:

Talvez o melhor da classificação como terroristas seja justamente a cooperação internacional. Mas é preciso ter cuidado. Assim que ficar mais difícil o tráfico internacional, vai aumentar o tráfico interno. Isso tem de ser previsto e enfrentado.

Revista A Verdade: Na prática policial diária, o que mais atrapalha o combate ao crime organizado: falta de integração entre forças, superlotação carcerária, legislação permissiva, ou a infiltração em mercados legais e no sistema financeiro?

Davidson Abreu:

O que mais atrapalha o serviço policial é a falta de interesse real em combater o crime organizado. É impossível o crime chegar a esse nível sem a conivência ou a indiferença do Estado. Tudo aqui funciona mal. O sistema carcerário, por incrível que pareça, só não está pior por causa do próprio crime organizado, que domina os presídios.

Nosso sistema de polícia é confuso, não existe em nenhum outro lugar do mundo e gera retrabalho. Dá-se mais ênfase ao policiamento ostensivo do que ao investigativo. A Polícia Civil, na minha opinião, não deveria ter nenhuma viatura caracterizada. E a PM não deveria precisar de intermediário para conduzir uma prisão. As leis são ineficazes e permissivas. Isso tudo faz do Brasil um terreno fértil para todos os tipos de crime.

O governo federal sempre se ausentou do tema. Quando Lula se interessou, foi para centralizar o poder — ideia que considero a mais perigosa para a segurança pública. O governo federal deve alterar as leis, fiscalizar fronteiras, adotar tecnologias, criar um verdadeiro banco de dados criminais e de DNA, além de um sistema cooperativo e integrado de inteligência.

Revista A Verdade: Se Flávio Bolsonaro for eleito, quais medidas prioritárias você recomendaria para retomar territórios dominados por facções e reduzir a sensação de insegurança da população, sem repetir erros de políticas anteriores?

Davidson Abreu:

Os erros do passado, em geral, foram eleitoreiros. O maior exemplo é o Rio de Janeiro. Lá podemos aplicar a Teoria do Espaço Defensável: os locais não permitem a defesa do Estado; pelo contrário. O Estado é totalmente ausente, não só na segurança pública. Trata-se de um verdadeiro problema de soberania, e não da narrativa do atual governo. Imagine uma cidade de 100 mil habitantes sem nenhuma viatura patrulhando. É o que ocorre em várias áreas do RJ.

A primeira providência é tomar o espaço e permanecer nele. Um local de cada vez. Deve ser um programa de Estado, não de governo, que prossiga de forma ininterrupta. É preciso quebrar a cultura do crime nesses locais. Incursões são apenas paliativos. Na verdade, o ideal seria que parte dessas áreas fossem desocupadas e, se possível, reordenadas.

Essa é uma matéria da Revista A Verdade

 

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