* Professor Antonio Rafael da Silva
Acordei cedo e me sentei na cabeceira da mesa. Abri as janelas e senti a brisa suave e o cantarolar dos pássaros. Distante 10 metros, a televisão em minha frente a oferecer as primeiras notícias do dia. Ali sentado, comecei a imaginar. O dia tem suas horas assim divididas: de 0 hora às 18 horas, convencionou-se que é dia. Daí em diante, noite e madrugada. O dia é para trabalhar, produzir, pensar, desenvolver o mundo; e um bom pedaço da noite/madrugada é destinado para dormir, descansar a inteligência, renovar-se fisiologicamente para o amanhã, sonhar e esquecer o conflito das ideias. Em dias passados, quando meus filhos eram pequenos, gostava de dizer: acordem cedo, pois quem acorda cedo vive mais e melhor. Foi assim que começou o meu dia 06.12.2015, às 6h. Sobre a mesa comecei a examinar o material literário e jornalístico. Primeiro, o livro de Nigel Warburton, professor de filosofia da Open University, li os conceitos dos também filósofos, Thomas Hobbes e Nicolao Maquiavel. Para o primeiro, a vida fora da sociedade seria solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta. Já o segundo, comungando com essa ideia, afirmava por sua vez, que as pessoas eram fundamentalmente egoístas e, daí, analisa a política feita por escolhas individuais. Certos ou não, seus dizeres me lembraram um mito grego. Para fugir do cativeiro, Dédalo usou sua inteligência construindo asas para ele e seu filho, Icaro. Dédalo voa e pousa a salvo no seu destino. Ícaro decide voar em direção ao sol e isso o faz tombar. Esse mito simboliza as possibilidades da inteligência humana, como razão e como sonho. Ao pai, a liberdade veio como vida. Ao filho, como destruição. Em ambos está em jogo a capacidade do homem de produzir sua própria história.
Certos ou não, os dizeres dos filósofos, e para fazer um paralelo com momento atual brasileiro, segui a folhear os outros materiais postos sobre a mesa. FOLHA DE SÃO PAULO: a) Para brasileiros, corrupção é o maior problema do país. Ou seja,reconhecemos, infelizmente, que a saúde, a educação e a segurança combalidas dos brasileiros, não são mais os nossos principais problemas. Não seria a corrupção a causalidade dessas outras mazelas? b) Para 81%, o mandato de Eduardo Cunha deveria ser cassado: dado coincide com a deterioração do Congresso Nacional. Eduardo Cunha, acusado de corrupção, é o Presidente do Poder Legislativo, o segundo Poder da República, aquele que, entre outras coisas, fiscaliza o orçamento, ou seja, dita como deve viver o brasileiro, quanto vai pagar pelo quilo do feijão, o preço da carne, o imposto, quanto vai ser gasto com saúde e educação. Estaria esse político sendo uma versão perversa do “maquiavelismo”? c) A deslegitimação de um sistema político. Com esse título, o jornalista Elio Gaspari lembra a saga de Nestor Cerveró. Um plano de fuga que não deu certo, pela denúncia do filho. O pai seria Ícaro. REVISTA ISTO É: a) A COP do Desespero. Em um mundo cada vez mais quente, países não conseguem chegar a um acordo na Conferência de Paris sobre quem pagará a conta da redução de emissão de CO2. Os países que mais emitem não querem bancar a conta. Os países mais poluidores (Estados Unidos, China, Japão, India…) julgam que a redução da emissão de CO2 reduziria seus ganhos. O fato real é que a média de temperatura da Terra vem subindo constantemente. O marco inicial foi o ano de 1880. De 1970 para cá vem ocorrendo o maior aquecimento. 10 dos anos mais quentes da história foram registrados nos últimos 12 anos. b) Mais mortal do que nunca. Surtos de febre, calafrios, dores terebrantes nas articulações, e às vezes acometimentos neurológicos, levam o Governo a uma operação de guerra para combater o devastador mosquito Aedes aegypti, mais um produto da má gestão no setor saúde. Está aí a nova tragédia que se soma a Dengue: o mosquito também transmite Chikungunya e Zica Virus, dois vírus não existentes em nosso meio e que foram introduzidos por movimentos de massa, desmatamentos. Zica Vírus é o mais grave. Além da sintomatologia exuberante, às vezes, sequelas como microcefalia. A TELEVISÃO se encarregou do último pesadelo neste começo de manhã. Notícias perturbadoras, em profusão, dão munição á direita organizada planejar um golpe político: o impeachment de uma presidenta legitimamente eleita.
Felizmente, no meio dessa avalanche de acontecimentos deploráveis que comprometem o bom viver e a nossa sobrevivência no planeta Terra, acontecem fatos grandiosos institucionais e humanos. Exemplos: O Brasil reafirmou seu compromisso de zerar o desmatamento ilegal até 2030. A Organização Mundial da Saúde lançou a campanha de ação e investimento para vencer a malária, com o lema: por um mundo livre de malária. O Brasil seguiu essa orientação e, em novembro deste ano, anunciou em solenidade específica o Programa de Eliminação. O Maranhão (Estado brasileiro que melhor desenvolveu ações de controle da malária nestes últimos 10 anos), também lançou o seu programa. O município de Buriticupu, em 03.12, com participação social e parceria com a UFMA, engajou-se nos programas de eliminação da malária e de controle da hanseníase. O Governo pôs em ação um programa para tirar da pobreza cerca de 30 municípios com IDHs aviltantes (sub-produto da desigualdade e da má qualidade de vida de nossos irmãos maranhenses). Precisamos ajudar. Nos Estados Unidos, um Homem viu uma criança se desligar do braço de sua mãe e cair na linha do metrô com um trem em velocidade. Incontinenti, lançou-se para salvar a criança. Após o ocorrido humanitário, perguntado pelo feito, disse emocionado: só me lembrei do sofrimento de sua mãe.
Estes exemplos demonstram que, paradoxalmente à sordidez, deparamos com atitudes e gestos que dignificam a humanidade. Em todos, a vida e a morte, a pequenez e a dignidade, o humano e o intolerável e, no centro de tudo, o homem no livre arbítrio de produzir sua própria história.
Quero finalizar parodiando Camões, o genial poeta, que no seu mundo lusitano proclamava por Gente mais verdadeira e mais humana.
Antonio Rafael da Silva
Médico. Professor.Titular da UFMA
Conselheiro de Honra da SBPC
Assessor do Ministério da Saúde para assuntos de malária
Ex-diretor da APRUMA