As urnas escolhem quem governa, mas não encerram nossas responsabilidades. O futuro de uma nação exige compromissos que sobrevivam às disputas pelo poder. As urnas foram fechadas. Os votos, contados. Uns comemoram, outros lamentam. Há abraços de vitória e silêncios de derrota. Nas ruas, nas casas e nas redes sociais, ainda ecoam as palavras de uma disputa que dividiu famílias, afastou amigos e transformou adversários em inimigos.
Mas, quando termina a eleição, o país continua.
Continuam as crianças que precisam aprender, os doentes que esperam atendimento, as famílias que não conseguem chegar ao fim do mês. Continuam os jovens em busca de oportunidades, os trabalhadores que temem o desemprego, os idosos que precisam de proteção e os cidadãos que desejam simplesmente viver sem medo.
Nenhum desses problemas perguntou em quem votamos.
A democracia permite que diferentes projetos disputem o poder. Ideias distintas, prioridades divergentes e visões de mundo conflitantes fazem parte de uma sociedade livre. O problema começa quando a disputa se transforma numa guerra entre identidades. Quando vencer significa humilhar o adversário e perder significa desejar o fracasso do vencedor, ainda que esse fracasso arraste consigo o país inteiro.
Uma eleição não é uma guerra civil. Quem vence recebe um mandato, não a propriedade do país. Quem perde continua sendo cidadão, não um estrangeiro em sua própria terra.
Há diferenças legítimas sobre o tamanho do Estado, a política econômica e os caminhos para alcançar o desenvolvimento. Mas deveriam existir compromissos nacionais que nenhuma alternância de poder pudesse abandonar.
Uma criança não pode esperar quatro anos para aprender a ler porque mudou o governo. A saúde não pode depender da cor de uma bandeira. A segurança pública não pode ser reduzida a slogans enquanto cidadãos convivem com a violência. A Constituição, a independência da Justiça, a liberdade de imprensa e a integridade das instituições não podem ser negociadas conforme as conveniências de quem ocupa o poder.
O combate à pobreza, a garantia de uma renda mínima às famílias vulneráveis, a redução das desigualdades, a moradia digna e o saneamento básico tampouco deveriam ser bandeiras exclusivas de um partido.
Um país precisa crescer, atrair investimentos, gerar empregos e criar oportunidades. Precisa de responsabilidade fiscal, estabilidade econômica, infraestrutura e segurança jurídica. Precisa investir em ciência, pesquisa, tecnologia e cultura, proteger seu patrimônio ambiental e preparar as próximas gerações para um mundo que ainda não conhecemos.
E precisa combater a corrupção não apenas quando ela envolve adversários, mas também quando compromete os interesses daqueles com quem nos identificamos.
Nada disso deveria ser patrimônio eleitoral de ninguém. São responsabilidades permanentes de qualquer governo. Os caminhos para realizá-las podem ser diferentes, mas a divergência sobre os meios não deveria servir de desculpa para abandonar os fins.
Tampouco basta anunciar boas intenções. Um projeto de governo precisa apresentar prioridades, propostas viáveis, recursos identificáveis e caminhos possíveis para transformar promessas em resultados. Não se governa uma nação com palavras que emocionam multidões, mas não resistem ao encontro com a realidade.
Prometer tudo a todos, sem explicar custos, limites e escolhas necessárias, pode conquistar aplausos e votos. Não constrói escolas, não melhora hospitais nem cria empregos. E, quando promessas impossíveis fracassam, não basta responsabilizar governos anteriores, adversários, instituições ou circunstâncias externas. Governar também significa assumir a responsabilidade pelo que não foi realizado, distinguir obstáculos reais de desculpas convenientes e reconhecer erros.
A esperança é indispensável à política. Mas a esperança que merece confiança não promete milagres. Apresenta caminhos, reconhece dificuldades e presta contas dos resultados.
Talvez uma das maiores dificuldades das democracias seja confundir fidelidade a princípios com fidelidade a pessoas. Defendemos atitudes que condenaríamos se fossem praticadas pelo outro lado. Justificamos abusos porque favorecem nossas convicções. Transformamos a crítica em traição e a concordância em prova de virtude.
E, pouco a pouco, deixamos de perguntar se uma decisão é boa para o país. Passamos a perguntar se é boa para o nosso lado.
A democracia exige exatamente o contrário.
Quem votou no vencedor não deve oferecer um cheque em branco. Quem votou no derrotado não deve transformar a oposição em sabotagem. Apoiar uma medida correta não significa aderir ao governo. Criticar uma decisão equivocada não significa desejar o fracasso da nação.
A lealdade democrática não pertence a um governante, a um partido ou a uma ideologia. Pertence à Constituição, às instituições e aos cidadãos.
Por isso, a fiscalização do poder deve começar no primeiro dia do novo mandato. Não depois de uma crise, quando surgirem escândalos ou apenas quando os interesses de determinado grupo forem contrariados. Desde o início, todos deveriam cobrar metas verificáveis, transparência, respeito às instituições e responsabilidade na utilização dos recursos públicos.
Uma sociedade democrática precisa de governos que aceitem ser questionados, de oposições capazes de reconhecer acertos e de cidadãos que não mudem seus princípios conforme muda o ocupante do poder.
União nacional não significa unanimidade. Não exige esquecer divergências, renunciar a convicções ou silenciar diante de injustiças. Significa reconhecer interesses maiores do que nossas preferências eleitorais e defender para os outros as mesmas garantias que exigimos para nós.
Há, entretanto, outra responsabilidade que começa no dia seguinte à eleição: a escolha de quem merecerá governar no futuro.
Essa escolha não deveria ocorrer apenas nas últimas semanas de uma campanha, sob o impacto de discursos inflamados, promessas sedutoras e medos cuidadosamente alimentados. Ela começa quando desaparecem os palanques e as palavras precisam se transformar em atitudes.
É nesse período que devemos observar quem procura aproximar os cidadãos e quem depende de mantê-los divididos. Quem apresenta um projeto de governo e quem possui apenas um projeto de poder. Quem pensa nas necessidades da sociedade e quem privilegia seus próprios interesses, os de seus aliados ou dos grupos que sustentam suas ambições.
O respeito às instituições se revela sobretudo quando suas decisões contrariam os interesses de quem governa. A honestidade se revela quando a corrupção envolve aliados. O compromisso com a liberdade se revela quando a crítica incomoda. E a responsabilidade pública se revela na disposição de reconhecer erros, prestar contas e aceitar limites.
Também é no exercício cotidiano da política que se distingue quem sabe ouvir de quem apenas deseja ser aplaudido, quem dialoga sem exigir concordância de quem transforma divergências em traições, quem procura soluções de quem necessita de inimigos.
Uma liderança não deveria ser avaliada apenas pela força de suas palavras, mas pela viabilidade de suas propostas, pela coerência de suas atitudes e pela capacidade de pensar além do próximo mandato. Os problemas de uma nação não obedecem ao calendário eleitoral.
Não se trata de procurar líderes sem convicções ou imaginar uma sociedade sem conflitos. Trata-se de exigir que as convicções convivam com o respeito, que os conflitos sejam enfrentados dentro das instituições e que o exercício do poder tenha como finalidade servir à sociedade, não submetê-la.
Uma nação não precisa de unanimidade para prosperar. Precisa de confiança suficiente para que seus cidadãos, mesmo discordando profundamente, reconheçam que compartilham direitos, responsabilidades e um futuro.
As eleições passam. Os governos se sucedem. As maiorias mudam. Mas a criança que hoje espera uma vaga na escola não pode esperar pela próxima vitória eleitoral. O doente que aguarda atendimento não pode adiar sua dor. A família que não tem o que colocar à mesa não pode alimentar seus filhos com promessas.
Para essas pessoas, o país não é uma disputa entre vencedores e derrotados. É a vida que precisa continuar.
A próxima eleição começa no dia seguinte à anterior. E talvez a pergunta mais importante não seja quem terá força suficiente para conquistar o poder, mas quem demonstrará grandeza suficiente para exercê-lo em benefício de todos.
Porque um país não se constrói pela vitória permanente de uma parte sobre a outra. Constrói-se quando seus cidadãos conseguem reconhecer, acima das diferenças, aquilo que os une.
As eleições acabaram. O país não.
E seu futuro não deveria depender de quem consegue dividi-lo para conquistar o poder, mas de quem é capaz de uni-lo para servir à sociedade.
*David Gertner, Ph.D. é escritor, ensaísta e professor aposentado. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon.
